Por Abdon Marinho

São José de Ribamar, 16 de outubro de 2019.

Meu caríssimo Walter,

NESTE DIA, em que pelo calendário comum estarias completando 70 anos, resolvi escrever-te mais uma vez. Já faz muito tempo desde quando expus a ti minhas ideias sobre o momento político brasileiro e maranhense.
Deveras que fazes muita falta na análise dos fatos destes dias e até é provável que estivesses discordando do meu desalento em relação a tudo que assisto.
Em relação ao Brasil, acredito que muitas das conquistas democráticas correm o risco de desaparecerem.
Assisto com muita preocupação as instituições se dissolverem.
Em diversos escritos tenho denunciado o novo “pacto das elites”, envolvendo as mais elevadas figuras dos poderes da nação, numa estratégia sórdida de proteção mútua e contra qualquer punição pelos malfeitos cometidos.
A palavra de ordem é: ninguém solta a mão de ninguém. Os “grandes” se protegem, ainda que para isso tenham que sacrificar a nação.
Imagine que a mais elevada Corte do país, para anular condenações de contumazes corruptos decidiu, desafiando o Código de Processo Penal, de 1973, que nos processos em que tenham delatores e delatados, estes deverão falar em tempos distintos nas chamadas alegações finais.
Ora, sempre tivemos delatores e delatados nos processos penais e durante quase cinquenta anos, nesta fase processual todos falaram no mesmo tempo.
Qual a razão disso agora, meio século depois?
Uma só. Anular as sentenças daqueles que foram apanhados roubando a nação.
Queres mais? Segundo dizem o Supremo deverá mudar sua jurisprudência que, inclusive, foi reafirmada recentemente, em 2016, quanto à execução da pena após a segunda instância.
Do ponto de vista doutrinário, em que pese raríssimos países adotarem o cumprimento da pena após o trânsito em julgado, é uma discussão interessante.
Acontece que não se trata disso. Mais uma vez, como no exemplo anterior, a ideia é beneficiar os corruptos de sempre, os que saquearam a nação.
Ninguém está preocupado com o Direito ou Justiça. Querem, tão somente, proteger os seus, ainda que para isso tenham que soltar milhares condenados pelos crimes mais diversos e graves, segundo informação do próprio Conselho Nacional de Justiça – CNJ.
Durante quase cinquenta anos não se preocuparam com o “cidadão” e agora passaram a se preocupar?
As devem ser ditas pelo nome: o STF trama para soltar seus bandidos de estimação.
Se olharmos para os outros poderes da República, o desalento só aumenta: temos um Poder Executivo que a maior parte das vezes se ocupa de resolver as crises que ele próprio criou ou de fazer tempestades em copos d’água; e um Poder Legislativo que não se constrange em partir para a chantagem explícita ou em legislar em causa própria.
O Brasil inventou um modelo parlamentarista onde os parlamentares mandam sem qualquer ônus e sem quaisquer responsabilidades.
Chega a ser patético assistirmos a comunhão de interesses entre os denominados de esquerda e os de direita na defesa da corrupção e da impunidade.
O cenário estadual é muito pior que o nacional. Enquanto para o Brasil existe alguma possibilidade de mudança a partir das eleições de 2022, no Maranhão as mudanças que se desenham, pelo menos até aqui, são para pior.
Como sabes – e é até provável que já o tenha encontrado por aí –, no último agosto dos desgostos perdemos o amigo Celso Véras.
Naquela manhã, enquanto velávamos o morto, eu e outros amigos, como Conceição Andrade, Juarez Medeiros, Zé Costa, Roberto de Paula, falávamos de sua contribuição na resistência à ditadura ou na luta pelos direitos humanos nos anos de chumbo e da sua influência para a formação de novas lideranças políticas no estado.
Mais tarde, naquele mesmo dia, um sábado, quando voltei para casa fiquei refletindo sobre a história política do estado.
A luta de gerações, primeiro contra a ditadura militar, depois pela alternância de poder e contra o sarneísmo.
A ditadura chegou ao fim em 1985. Em 1994 e 1998, com o falecido senador Epitácio Cafeteira, tentamos, sem êxito, a alternância politica no estado.
Apenas em 2006, com a vitória de Jackson Lago, o sarneísmo sofreu seu primeiro revés. Devido a força política em âmbito nacional, Sarney retomou o poder dois anos depois e, apenas em 2014, perdeu, definitivamente, o poder no estado para os comunistas.
Sabes bem que a luta sempre foi pela alternância e a partir dela levarmos o Maranhão ao desenvolvimento pleno.
Tenho dito, nos meus escritos – e também aos amigos mais próximos –, que o desenvolvimento acontecerá, cedo ou tarde – e apesar dos governantes que temos. Porém, cinco anos depois da sonhada alternância o que temos visto é a miséria absoluta aumentar assustadoramente, dizem que o aumento passa de 40% (quarenta por cento) nos últimos quatro anos; é o estado sem qualquer capacidade de investimento em obras estruturantes e mal podendo pagar sua folha de pessoal; é a previdência dos funcionários públicos entrar em colapso.
Novo governo, velhas práticas.
Diferente do que pensávamos, os atuais governantes não sonharam os mesmos sonhos que as gerações que os precederam. Eles têm um projeto de poder próprio que é indiferente ao destino do estado. Tanto assim que, cinco anos depois, buscaram uma aliança com o Sarney. Sim o mesmo Sarney que apoiou o regime militar e que sempre foi combatido pelas forças políticas democráticas do estado.
Pensei: as vidas de tantos companheiros sacrificadas na luta contra o sarneísmo para aqueles que, finalmente, tendo chegado ao poder se vendendo como alternância, aderir oficialmente ao Sarney.
Quando digo “oficialmente” é apenas para realçar o caráter litúrgico, uma vez que as práticas empregadas no governo atualmente não são muito diferentes das que sempre foram empregadas nos governos anteriores: o empreguismo, o patrimonialismo, nas denúncias de malfeitos, na utilização do poder público em benefício próprio, e tantas outras coisas.
Se existe distinção em relação aos governos anteriores, é apenas na piora, como na tentativa de criação de um pensamento único, na repressão à liberdade de expressão, na perseguição aos que não se calam aos desmandos.
Outro dia uma jovem sueca ativista da causa ambiental dizia que os adultos tinham roubado seus sonhos.
Em relação à política local poderíamos dizer que os atuais governantes roubaram os sonhos de duas ou três gerações, daqueles que lutaram contra a ditadura; dos que lutaram contra o sarneísmo; daqueles que sonharam com um governo realizador, correto e voltados aos interesses da população.
Ao invés disso, quando, finalmente, “chegamos” ao poder é para termos um governo eivado de velhas práticas e aliado do … Sarney.
E por qual razão? Novamente, uma só. O sonho do atual governador, como sabes, sempre foi seguir os passos do Sarney, galgar os espaços no cenário nacional e internacional que o velho morubixaba alcançou. Por isso mesmo, sem qualquer constrangimento, foi a casa dele pedir “arrego”.
Os seus aduladores e até mesmo o próprio, como se fossem fiéis discípulos de Pantaleão, inventaram mil e uma desculpas, os riscos à democracia, a causa nacional, a defesa da Constituição, etc. Nada disso, como se dizia no meu interior: foram “pedir penico”.
Outra coisa que sempre se dizia lá no meu sertão é que “galinha que segue pato, corre o sério risco de morrer afogada”.
Apenas um breve adágio para lembrar ao governante que os riscos de tentar seguir o Sarney é o mesmo da galinha.
Mas de tudo, caro amigo, o que mais me pesa a falta de perspectivas, é a desesperança em relação ao por vir.
Arrisco dizer que mais sinto saudades do passado de perseguições do que alegria com o que nos reserva o futuro.
Qual o legado politico do atual governo?
Olhamos as opções e o desalento aumenta. Não tem futuro. Não são pessoas voltadas aos compromissos históricos de lutas por justiça social, igualdade, honestidade, zelo pelo patrimônio público.
Temo, sinceramente, que no futuro sentiremos saudades da atual miséria que castiga nossos concidadãos.
Poderia me calar diante de tudo que assisto – como, aliás, me recomendam as pessoas sensatas –, mas foi para isso que tanto lutamos? Para, como gado, assentir como se tudo estivesse bem, só importando a ração diária que recebe?
Neste seu aniversário de setenta anos, caro amigo, ao passo em que lamento a tua ausência, a falta que faz nossas conversas de domingo, fico feliz por não teres que passar por tantas decepções, por tantos dias sombrios do presente e do futuro.

Um afetuoso abraço do amigo,
Abdon Marinho.

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