Abdon Marinho

O QUE teria em comum o Maranhão do século XXI com a Rússia Czarista do século XVIII?
A qualquer um a quem se fizesse tal indagação certamente diria que nada.


Um olhar mais atento perceberá outras similitudes além da grande miséria grassava aquele Império e que foi tão bem retratadas nas obras de Górki e Dostoiévski, já no século XIX.

Uma outra é a que recordamos agora.

Como sabemos, a Czarina Catarina II, a Grande, que governou o Império Russo de 1762 a 1796, viveu muito além dos pudores daquela época o que lhe permitiu colecionar um vasto número de amantes – uma série em exibição em diversas plataformas de mídia (e que recomendo) traz uma importante visão daquele momento –, dentre eles Potemkin (Grigory Alexandrovich Potemkin, 1739/1791).

Foi este militar, que virou favorito de Catarina e a ajudou governar por 17 anos, o criador de um marketing extraordinário para aqueles tempos e que ainda hoje inspira muitos políticos inclusive no nosso estado nos dias atuais, razão pela qual me veio à lembrança.

Conta a história (ou seria lenda) que após a incorporação da Crimeia (a primeira incorporação em 1783 ) mas na iminência de um outro conflito com os Otomanos, este organizou uma excursão de Catarina com diversos outros políticos europeus para mostrar que a nova possessão estava perfeitamente integrada, habitada e próspera.
Para isso, mandou construir diversas vilas com madeira e papelão com tudo que uma vila poderia ter: casas, igrejas, comércios, etcetera, entre Kiev e Sebastopol.

Assim, quando Catarina e seu séquito passavam, iam vendo lindas vilas bem pintadas, crianças brincando, homens de Potemkin fantasiados de camponeses felizes trabalhando, outros saudando a Corte de Petersburgo e lindas planícies com gado, etc.

Na verdade, por trás daquelas fachadas, aquela parte do país era deserta e o povo miserável.

Ao longo dos séculos muitos políticos fizeram o mesmo que fez o favorito de Catarina e, ainda hoje, as “vilas de Potemkin” servem para designar obras de fachada.

E, aqui entra o novo velho Maranhão cansado de guerra.

Desde que o atual governador do estado tornou-se “amante” da ideia de vir a ser presidente da República, vestiu-se de Potemkin e passou a espalhar a pesados custos para o contribuinte, suas “vilas prósperas”.

Quem assiste às preleções de sua excelência no rádio ou nos programas de televisão imagina que o Maranhão virou um oásis de desenvolvimento e que o nosso governante é um “gênio da raça” com capacidade para solucionar todos os problemas do Brasil e do mundo.

A realidade, infelizmente, discorda da impressão: e o governo é como as vilas de Potemkin, de fachada.

Recentemente, enquanto em entrevistas sua excelência “vendia-se” como a solução para os problemas do país – qualquer semelhança com as organizações Tabajara é mera coincidência –, uma matéria do Jornal Valor Econômico lançava um pouco de luz sobre a realidade maranhense.

Segundo a publicação o Maranhão é o estado da federação com mais miseráveis, com 12,2%(doze e dois avos por cento) das famílias sobrevivendo abaixo da linha da miséria, com menos de 85 reais por mês.

Em termos absolutos, considerando que o Maranhão, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, possui uma população de 7 milhões de habitantes, temos um exército de desvalidos superior à casa dos milhões, quando consideramos que as famílias mais pobres são justamente aquelas que possuem mais integrantes.

Não é pouca coisa, estamos falando de dois, três ou talvez quatro milhões de miseráveis.
É certo que o Maranhão sempre esteve na “rabeira” do desenvolvimento não se podendo atribuir toda a responsabilidade ao atual governo, na verdade a miséria do estado é histórica e há até quem diga que ser miserável “faz parte da nossa tradição”.

Por outro lado, é certo, também – e os números estão aí para testemunhar –, que o estado, sob a gestão comunista, o número de famílias miseráveis aumentou em 40,23% (quarenta e vinte três avos por cento), saltando de quase nove para mais de doze por cento.

Vejam só, logo neste governo que tinha como bandeira de luta a redução da miséria e das desigualdades, instituindo, inclusive um programa chamado Mais IDH nos trinta municípios mais pobres do estado, a miséria aumentou consideravelmente.

Para quem “se vende” como o “resolvedor-geral da República”, só estes números são suficientes para provar que o sucesso da gestão se assemelha às Vilas de Potemkin.

A avaliação fica ainda mais desfavorável quando sabemos que o atual governo recebeu o estado com as contas praticamente em ordem, com as despesas com pessoal abaixo dos quarenta por cento da receita; com servidores com salários em dias; com um fundo previdência com polpudos recursos em caixa; e com contratos para o ingresso de recursos em caixa para obras estruturantes na casa dos bilhões de reais.

Mas não foi só. Além de tudo isso, o atual governo foi eleito, como se diz popularmente, “sem dever nada a ninguém”, podendo demitir quem quisesse, equilibrar muito mais as contas públicas, rediscutir contratos, reduzir custos e se preparar para os dias difíceis que viriam.

Todos, até mesmo os mais desinformados sabiam, que o país, os estados e os municípios estavam atravessando uma crise que vinha desde 2012. Sua excelência, que passa a ideia de que sabe muito, decreto sabia disso.
Infelizmente, o Maranhão perdeu, com o governo que se iniciou em 2015, um grande chance de, mesmo na crise, dar um salto de qualidade.

O que assistimos hoje, quase cinco anos depois de iniciado o desastre comunista, é a despesa com a folha de pessoal nos limites da lei de responsabilidade fiscal; é o fundo de previdência quebrado, sem que os aposentados saibam até quando vão receber em dia suas aposentadorias e pensões; é o estado endividado além de sua capacidade de pagamento e cada vez devendo mais; é a total ausência de obras estruturantes; é o desperdício de recursos públicos; são as poucas obras (mal) feitas se desmanchando com as primeiras chuvas; etc., etc., etc.

O certo é que o Maranhão está no “atoleiro” do qual não conseguirá sair sozinho, por seus próprios meios.
Quem pode nos socorrer é o governo federal com grandes projetos estruturantes como a exploração de Centro de Lançamento de Alcântara; com a ampliação e a construção de novos portos; é a interligação das redes ferroviárias a estes portos, e outros projetos mais.

Indiferente a tudo isso, sobretudo à miséria que só aumenta, o atual governo prefere se conduzir por uma pauta ideológica que só atende aos próprios interesses do governante e seus aliados – os milhões de miseráveis que “se lixem”.

E, noutra quadra, segue construindo as suas “Vilas de Potemkin”, para quais não faltam recursos no orçamento do estado. Na pasta da comunicação foram executados em 2017, mais de 91 milhões de reais; em 2018, quase 62 milhões reais e a previsão para 2019 é de 63 milhões de reais. É muito dinheiro.

Com tantos recursos (proporcionalmente, superiores aos gastos do governo federal) querem vender a ideia que o Maranhão é um paraíso, que estamos acelerados no rumo do desenvolvimento e que temos os melhores governantes de todos os tempos.

Tudo tão real quanto as vilas de Potemkin entre Kiev e Sebastopol.
Abdon Marinho é advogado.

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