Por JRCampos *

“Todo ser humano é um idiota pelo menos durante cinco minutos por dia. A sabedoria consiste em não ultrapassar esse limite”.

Não me recordo do autor desse pensamento mais do que lúcido e atual, tamanha a propriedade de síntese. Uma coisa é certa: ele é motivo para muita escrita e reflexão, pois encerra uma sabedoria sem limite.

Essa introdução é para fazer uma chamada aos jornalistas de todo o país para a importância da leitura do livro “Perguntar não Ofende”, de José Nello Marques, lançado há um bom tempo pela editora Disal.

Jornalista muito conceituado nos meios de comunicação, o texto de José Nello, límpido, despretensioso de erudição, mas cheio de coisas simples e práticas para orientar o jornalista, recruta ou veterano, é uma viagem ao conhecimento de técnicas simples, da aplicação do bom-senso, da preparação para as entrevistas e, especialmente, do cuidado na difícil arte de saber fazer perguntas inteligentes, fora do tão famoso “óbvio e ululante”, do Nelson Rodrigues.

“Perguntar Ofende!” deve se constituir em leitura obrigatória para o jornalista que deseja aprender mais sobre sua profissão, sobre como evitar gafes imperdoáveis, sobre como não fazer perguntar óbvias, que de tão óbvias são cretinas e acabam fazendo do jornalista um grande idiota, ou pagar um mico sem tamanho. É leitura para um só tapa, de tão saboroso é o texto e as situações enfocadas. O que dá raiva é que se espera o relato de mais situações… mas o livro tem só 119 páginas, que se devora em, no máximo, três horas, parando par rir e curtir as situações, analisá-las e, delas, tirar o melhor proveito para não repetir as mesmas asneiras que a falta de atenção e o despreparo podem causar.

Saber fazer perguntas inteligentes é, com certeza, uma tarefa muito difícil, pois o jornalista deve estar sempre muito bem preparado para questionar com propriedade o seu entrevistado. Deixar a pauta por conta da imaginação, sem estudar um pouco o assunto sobre o qual vai fazer questionamentos, ou desconhecer o papel do entrevistado, confiando na sua autossuficiência porque é um jornalista veterano, não o isenta de fazer papel de bobo diante dos demais colegas e, também, de pagar o maior mico por desconhecimento do assunto, com perguntas impróprias.

Como diz José Nello Marques, não há jornalista tão autossuficiente que não tenha pago seu mico, ou até mesmo amaldiçoado um dia onde nada deu certo. Ou seja, um daqueles dias quando o cara levanta com o pé esquerdo, mal-humorado, sem grana e com uma grande pauta a cumprir. O somatório desses ingredientes é fatal para os piores escorregões do jornalista – a desatenção se instala e o besteirol, no vácuo da lucidez, deita e rola, fazendo com que o profissional ao fim do dia, e se tiver um mínimo de autocrítica, classifique o dia como uma m… o sintético “ô derrota!”.

Que o discernimento, equilíbrio e maturidade na profissão vêm com o ralar da prática diária, não resta dúvida. Isso, contudo, não isenta o veterano de, despreparado para o assunto e desatento para as respostas do seu entrevistado, não escorregar nas armadilhas da obviedade. Todo cuidado é pouco porque o besteirol não perdoa, ainda mais quando se trata de coletiva, e ao vivo!

O livro de José Nello, e isto não é nenhuma apologia, é um grande pronto-socorro para todos os jornalistas ávidos por aprender coisas simples, mas de grande utilidade para melhorar sua performance na difícil arte de saber perguntar. Afinal, como ele diz com muita propriedade, perguntar ofende! E como ofende! Especialmente a inteligência do telespectador, do leitor, ou de um mero espectador de coletivas ao vivo. O livro, certamente, não vai evitar o besteirol por todo o país, mas que vai ajudar, e muito!, quem o ler, não há dúvida!

*JRCampos é jornalista.

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