*Osmar Gomes dos Santos

No Brasil, o mundo da bola é realmente algo místico. Nenhum outro esporte no país é capaz de proporcionar experiências extremas, raramente experimentadas em outros âmbitos da vida. Certos de torcermos para o melhor time do mundo, nos lançamos a debater, criticar, criar argumentos e linhas de raciocínio dentro de uma lógica que, quase sempre, serve apenas para nós mesmos. Rimos, torcemos, gozamos o adversário, vibramos com emoção a cada balançar da rede. É gol!!!

O mesmo esporte que separa pelas cores de cada bandeira na hora de torcer, permitiu que todos se irmanassem em torno de um certo manto rubro-negro. Como vascaíno roxo, não posso negar que, na última semana, aquele evento trágico fez meu coração pulsar em vermelho e preto. Meu pensamento de solidariedade, como de milhões de brasileiros, estava lá naquele ninho tentando compreender o incompreensível.

Os dez do ninho eram apenas meninos, moleques, que, antes de tudo, gostavam de brincar de jogar bola, alimentando a vaga esperança de que um dia aquela malemolência, aquele molejo quase descuidado, pudesse virar coisa de gente grande. Sonhos era o que nutria cada um daqueles meninos. Cada um em seu pequeno ninho, lá estavam todos para mais uma noite de sonhos, longe dos familiares, das suas cidades, dos seus amigos.

Naquela manhã trágica, me questionei: como encarar mais um dia de trabalho tendo que digerir um café da manhã tão amargo em um momento em que todo país ainda chora por Brumadinho? Entre um compromisso e outro, acompanhava incrédulo todo o desenrolar do caso, as confirmações das mortes, o sofrimento dos familiares. Para mim, não tenho dúvidas de que para os amantes do futebol, independente da bandeira que defenda, foi momento de assumir uma dor comum a todos, que já não era mais adversária.

Contrariamente ao que possa parecer, essa atitude significa grandeza de espírito e solidariedade que só o futebol explica, ou seja: não se explica! Essa solidariedade fez com que o país do futebol vestisse uma só camisa, tal como ocorrera com a Chapecoense, na queda recente do avião que levou todo o time de futebol profissional. Futebol! Por um instante, fomos todos Flamengo, todos famílias, todos sonhadores, fomos todos moleques. Ah, futebol! Como te traduzir? Como te explicar?

Poeta que sou, a sensibilidade transborda a pele, a emoção aflora incontinente. O pensamento voou longe. Viajei aos tempos de infância, quando uma bola velha, às vezes de papel e plástico enrolados, era motivo para fazer os pés descalços sorrirem. Transportei-me àquelas famílias e não pude deixar de, no pensamento, afagar meus filhos e netos, cuja oportunidade de abraçá-los me é dada todos os dias.

Dessa veia poética busquei força e inspiração para suplicar ao nosso Criador. Mesmo sem entender os mistérios, tamanha minha pequenez para compreensão Divina, ousei usar do direito de petição ao maior Legislador e, ao mesmo tempo, Juiz do universo. Em requerimento simples, de duas linhas, supliquei: permita que vigore uma lei universal para reger a humanidade na qual possa constar que nenhuma alma partirá sem deixar de ser criança e nenhum pai enterrará seus filhos.

Essa deveria ser a ordem natural das coisas, deveria. Aos pais, não há nada mais puro do que ver sonhos estampados em sorrisos tão juvenis e olhares tão inocentes e cheios de doçuras. Poder compartilhar da esperança, apoiar o desejo de se tornar alguém na vida é uma missão que nós, pais, carregamos e cumprimos a qualquer custo. Contrariamente, o cumprimento do árduo dever de enterrar o próprio filho abre uma ferida que jamais cicatrizará.  Desígnios.

Ouvi muitos amigos e desconhecidos lamentar o fato de que aqueles meninos eram a “esperança” da família em dias melhores. Mas independentemente de qualquer retorno financeiro, tenho certeza absoluta que a realização do sonho de um filho suplanta toda e qualquer expectativa de um futuro traduzido em cifras. Aos pais nada mais interessa do que o sorriso, a alegria, a felicidade, a vida de seu filho.

Encorajar seus pequenos a seguirem uma carreira que lhes traria felicidade, mesmo estando longe de casa, é um ato realmente que parece estar acima da nossa compreensão. Mas assim o fizeram, como a mais pura prova de amor. Só queriam que aqueles meninos trilhassem o caminho que lhes faziam sorrir. Parafraseando uma famosa dupla, ao partir de casa rumos aos sonhos, lá ficou o olhar da mãe na porta, chorando, a abençoar.

Foram-se os dez. Deixaram este plano para atender prematuramente a uma convocação divina para estrelar na seleção lá de cima. No entanto, seus sonhos permanecem vivos cá em baixo, nos pés de tantas outras crianças, no sorriso alegre, no olhar de esperança, no coração daqueles que acreditam em dias melhores.

Quero, aqui, registrar apenas meus sentimentos, sem fazer juízo antecipado de valor sobre as causas que levaram a tamanha perda. Assim como nas tragédias de Brumadinho e na queda do helicóptero do jornalista Boechat, as investigações seguem e devem apontar para os fatores que ocasionaram esses eventos. Desejo apenas que a devida apuração seja feita, eventuais culpados responsabilizados e que o ocorrido sirva, definitivamente, para mudarmos ao nosso velho hábito do improviso, cristalizado no jeitinho brasileiro.

Para o momento, fica a homenagem para a instituição Flamengo, cuja composição vai além da sua diretoria. Assim como tantos outros grandes clubes, o Flamengo possui uma enorme torcida, grandes jogadores, colaboradores. Que nosso abraço chegue também aos familiares daqueles que se foram e dos que ainda fazem parte deste clube. Todos irmanados, um só país, uma só nação. Força Flamengo!

*Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.

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